sábado, 28 de agosto de 2010

O FIM DO MILÉNIO

Já tinham passado mil anos depois de Cristo quando as pessoas pensavam que o Mundo, não só o Planeta Terra, estavam condenados.
Depois veio o fim do segundo milénio e com este evento, de novo um monte de iluminados esperava de novo anciosamente pelo fim da humanidade desejando que tudo acabasse tipo filme norte americano com o Will Smith. Claro que nada disto diz algo aos crentes em Maomé para quem no ano 2000 já era 2622. Quer isto dizer que eles já tinham tido no ano 2000 deles a experiencia que o mundo não tinha acabado.
Em meados de 1999 já se faziam alguns planos para o virar do Milénio.
Realmente o ano trouxe-nos alguns acontecimentos invulgares de tal forma que em Agosto, nas férias, em vez de fazer o que muitos fazem, ir só para a praia, fomos para o interior, para o campo, mais própriamente para Figueira de Castelo Rodrigo.
Ficámos numa Residencial de nome Transmontano. O nome deve-se provávelmente à proximidade a Trás os Montes, já que estamos apenas a ums escassas dezenas de quilómetros do Douro e os seus proprietários são locais.
Como já era de esperar em terras onde antes havia uma avenida ou rua Oliveira Salazar, agora esta, a da residencial, chama-se 25 de Abril. O alojamento é muito agradável mas ainda mais é o Restaurante. Conheci o estabelecimento quando uma vez lá fui almoçar, estava num julgamento em Almeida, a uns senhores de etenia diversa que andavam na droga. Como eu me dava bem com o Ministério Público, lá fui almoçar com eles e o erário público é que pagou.
Andar nestes passeios trazia ao conceito de família uma tranquilidade inquestionável. A Mafalda já tinha dez anos e ainda não se recusava a trepar por ameias de castelos, enquanto a Mónica ía descobrindo o gosto extremo de o fazer.








Algumas das pequenas insignificantes coisas que acontecem pela primeira vez, aconteceram mesmo neste fim de ano; uma delas é mesmo invulgar. Ao virar a esquina encontrámos a Joana, a cegonha que um dia tinha caído do ninho e partido uma asa. Penso que ela tenha partido mais coisas porque além de não voar também cocheava. Na altura os bombeiros locais salvaram-na, trataram-na mas só não puderam ensiná-la a voar. Não era por cochear porque já vi um pombo a cochear que voou. Tristemente um dia quando voltei de novo e perguntei pela Joana, disseram-me que tinha morrido. Uns cães atacaram-na e desta vez os bombeiros já não a conseguiram salvar, tendo morrido. Os milagres não se repetem duas vezes, ou provávelmente, só muito raramente.

O passeio levou-nos a ver toda a zona a que chamam das aldeias históricas de Portugal, quer isto dizer, de Almaida a Pinhel, Castelo Bom e Castelo Melhor. Depois sempre pela estrada 221 até Barca d'Alva.

Mas entretanto, naturalmente voltámos a casa e enquanto a mãe voltou para o seu trabalho com os seus turistas, na manhã de 11 de Agosto chegou uma experiencia rara; a possibilidade de ver um eclipse de Sol.











Mesmo sendo parcial, havia meses que as pessoas aguardavam ansiosamente pelo dia. Todos tinham oculos apropriados para a visão. Havia quem os comprasse. Jornais e revistas desde a Bola, o Record, o JN e o DN, a Gente e a Tv Guia, revistas com gajas nuas, todas as publicações os ofereciam.
Fomos para o topo da Serra dos Candeeiros porque sempre estávamos seiscentos metros mais próximos do Sol o que para a nossa dimensão dá sempre ideia de utilidade.



No dia seguinte, fomos uma vez mais sem mãe, dar um passeio. Como o dia anterior nos tinha dado uma sensação de culturalidade, fomos ao Parque das Nações visitar o "Centro de Ciência Viva" no Pavilhão do Conhecimento.
Tinha acabado de abrir e permitia fazer uma série de experiencias sob a forma de brincadeira. Na memória tanto da Mafalda como da Mók ficaram algumas, embora a pracha de surf ou o edifício em construção, a parede para escalar, tenham ficado especialmente registadas.

Pagámos mil e seiscentos escudos para entrar. A factura era a primeira que vimos a apresentar o valor em Euros. Tínhamos acabado de gastar sete Euros e noventa e oito Cêntimos, a nossa primeira transacção com um valor tão estranho, como deve ter sido para os nossos antepassados o dia em que os Escudos substituiram os Reis.
Os Euros em si, fisicamente, só começaram a circular ao vivo no dia 1 de Março de 2002.



A Mafalda gostou especialmente da ideia de ir almoçar rodízio brasileiro ao Chimarrão.
O Chimarrão tinha sido alguns anos antes o primeiro do género a instalar-se em Lisboa, na Praça do Campo Pequeno, e durante bastante tempo foi motivo de tremendas refeições, motivo para ir de propósito a Lisboa para lá ir comer.
O cozido à portuguesa, ou o bacalhau que levavam pessoas a conduzir quilómetros para ir à Arruda dos Vinhos ao Fuso, tinham sido trocados pela picanha, a maminha, mais uma dúzia de carnes todas assadinhas no espeto só com sal... mais umas caipirinhas, um feijão preto, arroz e farinha de mandioca e mais umas caipirinhas. Nesse dia a Mó estava realmente esfomeada e foi preciso a certa altura quando o senhor veio com mais picanha dizer basta. A Mó ficou com uma lágrima, detestou-me por cinco minutos e como é hábito nela, passados outros tantos minutos, estava bem de novo.

O fim do mês aproximava-se e o dia 20, 24 e 27 marcaram as últimas idas à praia nesse ano.
Primeiro a 20 foi a Foz do Arelho e depois a de 27, no grande areal da Praia do Salgado que nos permitia fugir das multidões da Nazaré ou de São Martinho do Porto.





O mês culminou de uma forma estrondosa já que a noite de 31 ofereceu umas excelentes trovoadas secas, sonoras, brilhantes...
Passei mais de uma hora de máquina no tripé a tentar fazer as melhores imagens possíveis ao acontecimento.

A ida da Mónica para a escola aproxima-se e em meados de Setembro uma das preocupações maiores dela era tentar ler antecipadamente todos os livros que ía ter na primeira classe. A Mafalda tentava ajuda-la mas começar os textos pelo fim também não facilitava.
Provávelmente consequência dos dias em que eu lhes lia as histórias da Anita do fim para o princípio, trocando os nomes aos personagens e fazendo até da Anita uma jovem lésbica... ou numa Anita que fazia bombas artesanais para provocar ataques bombistas.

No fim de Outubro já o tempo estava bem humido e no entanto fomos dar um passeio. Fomos de excursão em autocarro a Santiago de Compostela. As coisas tinham-se organizado fácilmente. Nós vinhamos de casa e juntávamo-nos à mãe no Porto na noite de 30. Ela acabava lá um grupo com turistas e assim também podia ir.
No caminho parámos em Espinho e fomos ver a praia. Chovia uma chuva fininha e puxada a vento; nós só de gabardine. Ficámos substancialmente encharcados e ainda tive que ouvir um sermão da mãe por causa disso. Disparate porque ninguém se constipou...

A ida a Santiago de compostela foi para a Mónica a sua primeira saída de Portugal, enquanto província da Comunidade Europeia.
Já não havia fronteira entre Portugal e Espanha, eleminando aquela velha sensação de que aqui estamos nós e aí "vos otros".
Foi um grande passeio que nos levou a outros locais da Galiza, Pontevedra, Vigo e à linda Bayona com a sua enorme fortaleza e a bela marina, ao "filete de ternera", aos "calamares", e ao famoso "pimiento de piquilho".
A Mafalda achou muito engraçado que aqui, em Espanha, filete seja carne e não de peixe.






Por essa altura os portugueses entretanto lembraram-se que afinal havia pessoas em Timor, e repentinamente o País onde a maioria das pessoas nem sabiam o que era Timor, onde ficava ou quem lá vivia, se eram Malaios ou o que raio é que isso era, passaram a gritar em favor da sua libertação e a bater forte e feio nos Indonésios; mesmo assim continuavam a importar deles, as Barbies e o Action Man.

Ridiculamente uma boa parte daqueles que agora gritavam pelo povo de Timor eram os mesmos que  uns anos antes os abandonaram lá, os mesmos que na revolução chamavam nazis aos fascistas e que nunca souberam diferenciar uma cruz gamada de um "fascium".
Não é a questão da razão da politica, e muito menos do valor da liberdade. é mais por causa da ignorancia que limita o que se podería fazer.




Tudo o que acontece neste fim de século fica registado, embora, é claro todos os aniversários o sejam.




As aulas acabam a 17 de Dezembro e a Mó despede-se da escola escrevendo os nossos nomes no quadro. Nenhum dia por pior ou melhor volta atrás, e no entanto todos estes acontecimentos ficam registados.
Desses dias ficam na lembrança a Angela, a Susana e a Miriam, a Nanci, a Cristiana... a Vanessa.



Nesse fim de ano na festa da Frei Estevão Martins, onde a Mafalda andava, as suas companheiras de dança tinham sido a Nicole Elaine, a Claúdia e a Filipa, a Sónia, a Joana...

Acontece o Natal e a tia Nana, a tia que criou a mãe das meninas, a Manuela, aproveita a data para lhe dar algo que descobriu, o passaporte, a documentação toda, os bilhetes, as reservas, da viagem de fim de curso que a sobrinha tinha feito no fim do liceu.
O fim de ano comemora-se na "Quinta da Ataíja" com uma extraordinária festa em que o meu cunhado mais velho, o Nando, chega a dançar em cima da mesa com a sua filha mais velha a Catarina.
Come-se imenso em boa qualidade e quantidade.
Os quilos na balança pelo menos provêem de uma excelente culinária.
O tio Manuel e um amigo de longa data da família, o Boa Fé, atiraram os morteiros.
Este ano são mais que alguma vez me lembro, mas a razão era maior que o habitual; passámos dos mil e novecentos para os dois mil.
Quando eu tinha a idade que a Mafalda tinha após a passagem do ano em 2000, dez anos, achava que o fim do século nunca mais chegaria e na televisão uma série chamada espaço 1999 era ficção cientifica, no entanto estávamos finalmente no século XXI e todos juntos.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Os anos de Troia


Para começar algo que explique a vida comum, nunca há meio de saber em que altura se deve começar.

Aqui já falei em coisas que se passaram quase na actualidade, e outras cujas origens remontam ao fim do Século XIX.

A missão é sempre deixar não uma biografia de família, mas simplesmente um grupo de factos que permitirá às minhas filhas saberem "de onde vieram"...
Ao desfolhar um album de fotos, fui encontrar uma sequencia de acontecimentos em que a vida apareceu e a morte aconteceu.
... estávamos em 1991, mais precisamente em Julho quando eu e a Manuela, a mãe da Mafalda e da Mónica, as nossas filhas, decidimos ir passar uns dias a Troia. Na altura Troia ainda tinha um pouco daquilo que eram as suas origens do tempo de uma coisa chamada Torralta, que a tinha construído, que era uma sociedade em que muitas pessoas do povo tinham investido as suas economias, sempre na esperança de conseguirem com isso algum capital e por outro lado poder passar dias de férias em locais onde só os mais abastados "burgueses" podiam ir.
Troia era aquele local onde íamos de vez em quando. Era giro, ficava ali do lado contrário de Setúbal, separado apenas por um ferry boat. No fim dos anos setenta ainda tinha um cinema que já não trabalhava a não ser por causa de um festival que resistia, o Festival de Cinema de Troia.
Tinha também um mini mercado, a que chamavam super. Tinha um pouco de tudo e alguns dias felizes da vida passei-os nesse local. Não no mini mercado, é claro, mas numa das partes do conjunto hoteleiro. Existia um hotel que nunca foi acabado, outros que operavam como aparthoteis, de classe superior, e uma coisa girissima que chamavam "bandas". Nas "bandas" um T0 custava 700 escudos, 3,5€ por dia, no Inverno de 1980. Conseguia passar-se um fim de semana barato, com comida e tudo, com praia... e claro, com a namorada, por um preço apaixonante.

O último dos restaurantes a sobreviver era próximo das bandas, mas o que mais nos marcou, foi o "Bico das Lulas". Ainda há dias a mãe das minhas filhas me lembrou uma noite em que o multibanco não funcionava e fomos lá jantar. Não nos conheciam de lado nenhum, mas confiaram em nós e no dia seguinte lá fomos pagar. Nesse mesmo ano voltámos lá e já não funcionava. Tinha falido, tal como tudo faliu em Troia. As piscinas, mesmo as maiores foram arrasadas e eu já não me interessa lá voltar. Aquilo que nos fazia lá ir ficou perdido no tempo. Ridiculamente a última vez que lá passei, junto ao Bico das Lulas, foi no dia do meu divórcio da mãe das meninas... foi como que simbolico.
Mas em 1991 Troia ainda tinha uma vida que era a do resto de uma terra que tinha sido gerida por trabalhadores no pós 25 de Abril e que tinha tido depois uma daquelas administrações feitas com amigos de amigos de amigos, que andam todos de carros de gama elevada, por causa de serem gestores... mas que acabam por vender tudo como massa falida; ou similar.
Mas então, em Julho de 1991 fomos para Troia com a Mafaldita. Foi a primeira vez que ela lá foi passar uns dias. A praia estava aquela delicia de sempre e nesse ano sempre que a Mafalda dava com o pé em qualquer coisa que parecesse uma construção na areia, dizia "tuna tuna"...

O verão de 91 não foi dos mais extensos que me lembro, de tal forma que em Setembro até já não fazia calor excessivo. Nesse mês comprei um corvo para a Mafalda a quem ela chamava de "patuuu... patuu". Ainda hoje o corvo está em cima da cama dela, com o mesmo boné e um coração preso a uma pata que diz... "prisioner of love".




Foi em 14 de Setembro que a Mafalda fez a sua primeira viagem de comboio. A mãe acabava um serviço em Tavira e por isso fomos de avião até Faro e depois de comboio para Tavira. Como ela era muito pequenita não pagou, mas eu como de sempre, guardei o meu bilhete que custou na altura 205 escudos.


Lá regressámos todos a casa no autocarro em que a mãe tinha trabalhado; vida de guia interprete.
Com o chegar dos dias mais frios, decidimos ir até Andorra para gastar uns dias livres. Era Novembro e aproveitava o meu aniversário a 13, para comprar algo por lá. Assim foi... comprei uma bela gabardina que durou dez anos e um auto rádio para o carro novo. chegámos à fronteira com Espanha e ninguém reparou no rádio que vinha lá calmamente no sitío dele, só que sem estar ligado. A mãe para variar dormiu quase todo o caminho, mas isso já era habitual.
Um ano quase inteiro passou e um dia de Setembro, agora de 1992, comprei para a Mafalda um casacão barato no Carrefour. Sempre tive um certo jeito para comprar coisas para as minhas filhas e este foi mais um desses casos. O casaco foi propositadamente do número acima. Deu dois ou três anos para a Mafalda e a Mó ainda chegou a vesti-lo.























Pouco tempo antes tinha decidido colocar uma bandeira da Comunidade Europeia por cima da cama da Mafalda. Na ponta tinha um ursinho a andar de baloiço. O urso chamava-se Jean Monet... muito apropriadamente, já que anos depois a Mafalda era o único ser a saber o nome do fundador da Comunidade Europeia.

 
A propósito de Mó, a mãe estava grávida de sete meses e por isso menos de dois meses depois, na tarde de 6 de Dezembro, lá tive que ir com a Mafalda até à Maternidade Alfredo da Costa para lhe apresentar a irmã.
Dois dias depois já ela estava em casa e por causa de uma mastite que a mãe teve, a Mó teve que ser alimentada a biberom. Afinal, passados os meus medos inicias sobre como é que ela se iría dar com o biberom, a seguir o receio era sobre se ela não o comeria...
A primeira vez que lhe pusemos o biberom na boca, o leite até borbulhava e se tivesse o dobro, ela bebia. Comprovou-se ser genéticamente muito parecida comigo. Até doente tem vontade de comer.
O primeiro banho da Mónica foi no dia 17 de Dezembro mas mesmo assim passou mais de um mês desde o dia em que nasceu até ver os meus pais.



No dia 10 de Janeiro de 1993, lá fomos ver os meus pais à Amadora, onde viviam. Das imagens desse dia ficam para a história três, que são únicas. A primeira é aquela que é a primeira vez que a minha mãe segura na Mónica. Outra é a imagem em que pela única vez aparecemos todos juntos com o meu pai e minha mãe ao mesmo tempo. A última é aquela que foi mesmo a última imagem que fiz aos meus pais juntos.



Há muitos anos que eu não via um sorriso ao meu pai e neste dia pude ver. As festas do meu pai eram três palmadinhas ao de leve na cabeça e ele deliciado a olhar para a Mó, fê-las. Guardou outras para a Mafaldita.
A última foto dos meus pais juntos? É claro, mas isso já está contado aí para baixo noutro destes textos. Ele morreu passados meses, no dia 13 de Novembro.


quinta-feira, 10 de junho de 2010

A treze de Novembro, ou, como o aroma de frango corado na frigideira, com margarina, alho e limão, acompanhado por puré de batata, me fez lembrar a minha avó paterna, a Lucinda do Carmo.

... a partir daí vieram-me mais um monte de recordações e história do nosso passado, aquela que quero ir escrevendo para as minhas filhas.
Mas tudo começa, digamos, há uns anos. Em 1922 nasce o meu pai, o Ernani. Nessa altura os nomes escreviam-se como deve ser. Um ano depois houve uma daquelas porcarias a que chamam acordos luso brasileiros e que cada vez nos coloca mais longe da verdadeira língua portuguesa, das suas raízes no latim e no grego. A partir desse acordo passou a escrever-se Hernani; com agá.

Nada melhor que usar o meu pai como o elemento de ligação neste passo da história da família. Afinal a maior parte do que me lembro tem a ver com memórias e apontamentos que fiz daquilo que ele ía contando ao longo de anos. Os envolvidos nesta descrição vão ser fundamentalmente o António e o Fausto Duarte Lindo, bem como a Lucinda do Carmo.

Bem, o Senhor ao lado dele é o meu avô António Duarte Lindo. Nasceu no lugar de Chão de Maçãs, freguesia da Sabacheira, perto de Tomar. O local é onde está a estação de comboio que tinha esse nome, mas que “Deus sabe porquê”, passou a chamar-se Fátima desde que alguém achou que era a estação de comboio mais conveniente para lá ir… desde que a Nossa Senhora tinha aparecido aos pastorinhos.

O avô António não emigrou directamente para Lisboa, já que na realidade acabou por lá ficar apenas depois da 1ª Grande Guerra Mundial. A “Brigada” de que fazia parte pertencia ao CEP, Corpo Expedicionário Português, foi enviada cerca de 1915 para o norte de Moçambique para combater contra os alemães no Tanganica, actual Tanzânia. Entretanto dois anos depois e sob comando do General Gomes da Costa a sua Brigada é enviada com outras directamente para França. É assim que são descarregados na Flandres, em pleno inverno de 1917, equipados de calções caqui e camisas de manga curta. Por lá andou até ao fim da guerra. Lutou em 9 de Abril na Batalha de La Lys, passou pela tenda do Dr Jaime Cortesão para ser observado por ter sido gaseado e voltou para Lisboa onde não estava fazia três anos. Foi único homem da família a voltar. Todos os restantes, nove, morreram lá.

O irmão dele, o Fausto, tinha ficado em Moçambique, tendo entretanto ingressado na Guarda Fiscal. Nunca mais voltou a Portugal, acabando por ser chefe de Posto no Lago Niassa; 30 dias a pé desde a costa do Índico.

O António e o Fausto são os primeiros a usarem o apelido Lindo. A irmã, Augustina Correia, foi a última a usar o nome de família original que era assustador; Calhau.

O António com este regresso a Lisboa reparte a sua juventude na capital por três locais fundamentais, a Costa do Castelo, onde reside num terceiro andar, mesmo ao lado da famosa Casa do Menino de Deus, a Rua das Portas de Santo Antão, por andar a fazer a escola primária no Ateneu Comercial, e a Rua do Bemformoso, onde trabalha de ajudante de marçano na mercearia do Sr. Jacinto Pedro.

Vivendo na Costa do Castelo no período antes da “estabilidade” do 28 de Maio de 1926, a revolução que acabará por estabelecer Salazar como eterno 1º Ministro, o dia a era regularmente incerto. Várias revoluções ou intentonas, com navios da armada a dispararem sobre o castelo de São Jorge, ripostando os militares do exército, sendo normal ter que fugir para os andares mais baixos.

Foi aí, ao cimo da Rua dos Cavaleiros, na Calçada de Santo André, que conhece a Lucinda do Carmo. Por questões de ordem natural, incluindo até o casamento, nasce o meu pai. Por ter sido esse o local onde eles se conheceram, o meu pai dizia ser membro da Casa Real Escocesa, a Casa de Santo André.

Algo que contarei noutra altura é a vida da minha avó materna Irene da Conceição, que era muito amiga desde miúda da Lucinda. Por isso é que a minha mãe também é Lucinda, Maria Lucinda. É que esse acaso levou a que a minha avó paterna fosse madrinha de baptismo da minha mãe.

O outro amor do meu avô António acabou por ser por causa do Ateneu ser mesmo ao pé do Bemfica. Quase desde que começou a estudar que se tornou sócio do clube que ficava ali a duzentos metros. Não jogava futebol no Bemfica, mas sim um desporto que admirava profundamente, a luta greco romana, que lhe deu várias medalhas ao longo de anos. Um dia num assalto lá à casa onde viviam foram-se todas, menos uma que caiu para trás da gaveta onde estavam.
O Jacinto Pedro abriu outra mercearia que era na realidade um armazém de retalho, aquilo que hoje se chama pomposamente “cash & carry”. Colocou lá o António como gerente, tendo-lhe mais tarde dado sociedade levando em conta a honestidade e lealdade, que o caracterizavam. Acabou por lhe vender essa loja em 1929. Má altura no tempo, já que no ano seguinte com a grande depressão de 1930 o negócio quase que faliu. Os anos que se seguem são de recuperação. O meu pai faz a primária na Escola Josefa de Óbidos e o Liceu no Gil Vicente na Graça e em Abril de 1940, quando está quase a acabar os estudos liceais, vai com os pais à Estufa Fria em Lisboa. Estava invulgarmente quente para a época e com uma corrente de ar ou algo assim, o meu avô António apanha uma pneumonia. Como era diabético e na altura não havia ainda penicilina, morre. Pagou as cotas do Bemfica até ao mês em que morreu.

A Europa está de novo em guerra. O negócio do armazém não corre nada bem, e arranjar outro emprego não é nada fácil.

O Fausto está em Moçambique e parece que por lá se consegue trabalho com menos dificuldade. O meu pai e a mãe vendem a loja e com o dinheiro compram passagens de barco para Lourenço Marques.

A treze de Novembro de 1940 embarcam no navio “Colonial” na Companhia Colonial de Navegação.

Chegados a África vêem-se perante todas as dificuldades de adaptação normais de quem nunca tinha saído de Lisboa. Tinham saído de Lisboa com chuva, quase no Inverno, com temperaturas máximas de 12 ou 13 graus e chegam a uma terra onde é quase Verão, com temperaturas a rondar os 35 graus, com uma humidade muito elevada em que dia e noite se está sempre a transpirar, rodeados de moscas e mosquitos.

Ao fim de cerca de um ano, o Ernani concorre a duas entidades. À Shell e ao Estado. Como já nessa altura havia a solene ideia que trabalhar para o Estado era mais seguro, acaba por ficar nos Serviços de Agricultura e Florestas. No entanto pouco tempo depois entra para as Forças Armadas, mais propriamente para o Exército, vindo a repartir o seu tempo militar por duas fases. A primeira em Boane e a segunda no Quartel General em Lourenço Marques; mas isso também é para outras histórias…






Entretanto a Lucinda e o cunhado Fausto acabam por se casar.

Quando eu nasço a 13 de Novembro, agora de 1960, a família são eles e os meus pais, mais os gatos e o cão Stop; é claro. Tinham passado precisamente 20 anos desde o dia que o meu pai e a minha avó Lucinda tinham deixado Lisboa.



Toda essa vida está presente de uma forma viva na minha memória. Uma parte da memória associa-se a comida. Recordo-me de um dia a minha mãe estar a fazer iscas de fígado e eu me tentar levantar do chão para chegar à mesa. Eu não podia comer isso que ainda era muito pequeno mas quando já podia uma das coisas que a ela fazia e eu mais gostava era frango corado em margarina com alho e limão, acompanhado com puré de batata. A minha avó não cozinhava tão bem como a minha mãe, mas isso não fazia com que ela não tentasse fazer para mim o que eu gostava; e comia na mesma. Além disso ainda me dava azeitonas (mnham) , o que não era muito aconselhável naquela quantidade com a idade que eu tinha. Outra coisa que eu gostava das que ela me dava era café com leite. Até podia não ser o melhor café com leite do mundo e a minha mãe se soubesse que ela mo dava, andaria aos gritos de certeza. Aos quatro anos eu também bebia o resto da cerveja que o meu pai deixava na garrafa que havia aberto, e ela só soube disso já eu tinha uns trinta anos. Não me gritou nem bateu; o tempo cura muitas coisas.

O Fausto a quem eu também chamava Tio, tio Fausto, levou-me um dia com a Lucinda ao Jardim Zoológico. Não me recordo porquê mas acabámos por não entrar. O que não esqueço é o aroma do café com leite que a minha avó levava no termo. Estava muito quente mas soube tão bem. Só me deu uma chaveninha mas se tivesse dado tudo, acho que tinha bebido até à última gota.

Os acontecimentos precipitam-se por razões que nunca se saberá, a não ser que afinal o Céu exista e não seja um mito. O Fausto morre na noite de Natal de 1964; enforca-se.

Eu e os meus pais vivíamos num apartamento mas com a morte do Fausto mudámos para a casa da minha avó. Era na Avenida Afonso de Albuquerque, uma grande casa que tinha sido feita pelo Fausto e pelo meu pai.

Havia algumas coisas que os dois tinham muito em comum, mas fora a forma de ser, também os carros. Ambos tinham Volvos 444, o LM-14479 era do tio Fausto e do meu Pai o LMA-19-45, o que está na imagem a cores e em que eu vim para casa depois de nascer.


O Cão Stop morre e pouco tempo depois a Lucinda é recebida num estabelecimento para tratamento de doenças do foro psíquico. Sei que na gíria dizem Hospital para Malucos, mas nunca vi nem verei, não aceitarei, a situação dessa forma.

Um dia estava a olhar para a rua pelo postigo da porta de entrada. Vi a minha avó a atravessar a rua na nossa direcção. Não era outra pessoa parecida; era mesmo a minha avó. Chamei a minha mãe e quando ela veio, a Lucinda já lá não estava. A minha avó tinha morrido algumas horas antes no hospital onde se encontrava internada.

A 13 de Novembro de 1993 o meu Pai morre; treze de novo.

No dia seguinte a minha mãe contou-me que o meu pai lhe tinha trazido um ramo de rosas. O meu pai também tinha morrido no dia antes…

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Nota complementar:

Enquanto recolhia as imagens para acompanhar o texto reparei que havia uma onde o meu pai fazia uma careta. Havia uma outra careta que ele fazia e que não tenho em foto; tenho só em memória. No entanto é simplesmente ver a imagem da neta, a Mók; a papel químico. Quando o avô morreu, a Mókzza tinha 11 meses. É, ou deve ser ou coincidência ou simplesmente genético.





quarta-feira, 4 de novembro de 2009

O Pai da Minha Mãe; o Avô Manoel


Parece heresia mas estava em dúvida sobre escrever, sobre a casa onde cresci entre os quatro e os sete anos, ou sobre o meu avô materno.
Optei pelo meu avô porque hoje não estou a fim de falar da casa.
Começando pela imagem acima para enquadrar o espaço...
A foto é de 1929, feita em Queluz, na casa do Senhor Albano, o Chalet Violeta. O referido senhor é o primeiro da esquerda.
O segundo a contar da direita é o Jorge Antunes, o padrinho que deu o nome, Jorge, ao irmão da minha mãe, o Jorge Reis, nascido nesse mesmo ano.
O primeiro da direita é então o meu famoso avô materno, o Manoel Gonçalves dos Reis, nacido em Góis em 31 de Dezembro de 1898 mas registado por engano como sendo 1899.
Creio que uma boa parte do meu gosto pela fotografia e imagem vem dele, que já no fim dos anos vintes fazia fotografia. Por isso tenho belas fotos dele, da minha mãe e avó materna, de Queluz, Lisboa e Góis ao longo de 30 anos durante o século vinte.
Se o meu pai foi um homem com uma vida cheia de interesse, este avô é na classe dele o que mais me admira.
Segundo histórias dispersas foi ao tal Senhor Albano que ele comprou uma loja de peles em Lisboa, na Rua Augusta ou da Prata, a Casa da Rússia.
É à porta deste estabelecimento que o meu pai, sem sonhar que um dia se viría a juntar com a minha mãe, andava cerca de 1939 com uns amigos a marchar com bandeiras vermelhas enroladas. Depois veio a Pide, os polícias políticos da época, e eles desenrolam as bandeiras que afinal não eram soviéticas mas sim do Benfica. O avô Manuel ria-se da brincadeira.
O avô embora da família do Marcelo Caetano, o primeiro ministro antes da revolução de Abril de 74, tinha crescido com uma educação mais de esquerda. O pai dele era um Socialista bolchevique, que lia Marx e Engels.
A propósito de Marx e de Pide, o meu avô de vez em quando ía até à prisão de Caxias passar umas temporadas em que eles através de turtura, pancadaria e outros meios tentavam fazer com que ele admitisse ser comunista. Giro é que quando os agentes estiveram lá em casa nem deram por coisas tipo “O Capital”.
A vantagem de serem todos portugueses e ser da família do Marcelo, que já estava no Governo do Salazar há uns anos, era que enquanto estava preso, aparecia de tempos a tempos um camião da Manutenção Militar que vinha trazer comidinha, mantimentos e outros diversos. Foi assim que certa tarde de 1945 a minha mãe, no meio das coisas, ganhou pela primeira vez uns colants; eram norte americanos, feitos pela DuPont.
O avô Manoel dedicava-se a vários negócios e o interesse dele pela quimica levava a que tivesse também um laboratório farmaceutico em Coimbra, o Sier. Além disto também era correspondente do jornal “A República”.
O circulo de amigos era invejável e alguns dos maiores tinha-os conhecido enquanto fazia teatro.
Outros eram da rádio, no entanto era no cinema que encontrava o maior prazer. Era normal encontrar-se com os grandes realizadores da época, como o António Lopes Ribeiro, o Manoel de Oliveira ou o Perdigão Queiroga. Foi nos estúdios deste último que conheceu uma amiga com a qual teve uma relação mantida até ao fim da vida. Não me lembro do nome mas sei que era anotadora do Queiroga e que tinha sido uma relação começada a partir de uma aposta com um motorista. Quase foi viver com ela e ainda chegou a querer levar a minha mãe e o irmão para a sua casa. Algo aconteceu que travou essa vontade. A história da aposta era mesmo verdade porque um dia, eu em Lisboa, apanho um táxi conduzido por um senhor já idoso e depois de animada e estranha conversa, chegamos à conclusão que era desse preciso episódio que estávamos a falar, sendo esse motorista aquele com quem ele tinha feito a aposta.
Durante estes anos ainda consegue ser co fundador da protectora dos animais e membro activo no arranque do MUD, Movimento de União Democrática, um partido cujas influencias se terão arrastado por fracção até ao CDE, mais tarde MDP, tendo-se dissolvido depois da morte do José Manuel Tengarrinha, seu último mentor.
Em 1968 o Manoel morre com um cancro de estomago.


Os cães lá de casa deixaram de ir ter à Estação do comboio para o esperar... tal como faziam todas as tardes.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

O Dia da Mãe




Tinha guardado este dia para falar da minha mãe, neste espaço que me permite, fundamentalmente, deixar por escrito para as minhas filhas Mafalda e Mónica, quem foram os seus antepassados.
A Mónica teve pouco contacto com ela mas a Mafalda ainda se lembra dela, especialmente por causa das chávenas de chá, muito fraquinho, que a minha mãe fazia para ela.
A minha lembrança sobre a minha mãe deve-se a diversas coisas. Em especial sinto-a naquilo que herdei dela. O meu sentido artístico vem do lado dela e do meu avô materno.
Ela pintava uma "espécie rara", o hiper realismo. Fazia quadros grandes em que mostrava especial atenção para com a natureza. Nos quadros dela era sempre de dia e havia sol. Eram sempre muito primaveris. Os brilhos nas folhas ou nas pequenas ondas dos lagos eram retocados a pincel zero ou até zero zero.
Desde muito pequena que tinha uma tendencia clara para as artes e além da pintura, desenhava, desenhava e fazia bordados extensíssimos com um enorme rigor, visível pelo inverso dos trabalhos onde todos os remates são identicos e onde todos os pontos mantêm a mesma direcção. Naturalmente não estou a explicar bem só que não sei as expressões correctas.
Nasceu em Queluz e adorava o Palácio. Tinha orgulho no facto do Pai dela ter ajudado a salvar imensas coisas no fogo do Palácio nos anos 30 ou 40 do século XX.
Não tinha tanto orgulho em outras coisas mais pessoais, especialmente no que dizía respeito às amantes que ele tinha.
A minha mãe tinha fortes influencias de esquerda, ou daquilo que se afirmaría como esquerda na actualidade. Afinal o Pai tinha sido um dos fundadores do MUD, Movimento de União Democrática, tinha sido preso pela Pide e o Avô Paterno dela era um verdadeira Socialista Bolchevique, que lia Marx e Engels.
Quando o Santa Maria foi desviado a rádio não disse quase nada sobre o assunto, mas ao ouvir a notícia, a minha Mãe disse logo que tinha sido o Henrique Galvão e que estavam a desviar o navio para o Brasil. O meu Pai que era funcionário do Estado, ficou assustadíssimo. Infelizmente na época não era razão para menos.
Em 1959 a minha Mãe meteu-se no Mousinho de Albuquerque, um Lockheed L1049 "Constelation" da TAP, e foi ter com o meu Pai.
Desde esse dia o meu Pai tornou-se absolutamente monogâmico.
Houve um dia que decidiram começar a viver juntos e algum tempo depois, PUF, nasci.
Eu nunca imaginava ... todos os meus colegas de escola tinham pais que eram casados um com o outro.

Um dia a minha mãe convidou-me para um casamento; tinha eu 15 anos
Eu lá fui sem fazer perguntas porque ela disse que era surpresa. Eu gosto de surpresa por isso não me importei.
Bem, mas foi realmente uma enorme surpresa... era o casamento dos meus pais.

Dos tempos de África, uma das minhas lembranças em mais pequeno é aquele dia das fotos que estão ali no topo do texto, tinha eu dois anos.
Lourenço Marques era uma cidade muito bela. O meus pais saíam, não todos os fins de semana mas quase. Levavam sempre a máquina fotográfica e registavam-se os passeios. Por isso a memória tem a vida facilitada.
Toda a nossa vida foi profundamente abalada pela revolução.
Perdemos tudo e nunca mais a vida foi o que era.
O meu Pai largou o Estado e finalmente foi o que desejava; professor a tempo inteiro.
No dia dos meus anos em 1993, o meu Pai morreu e a minha Mãe ficou só.
No dia seguinte à morte dele, a minha mãe contou-me que ele lhe tinha aparecido uma vez mais só para lhe dar flores... era mesmo dele.
Ela não gostava de grandes visitas e nem sequer imaginava viver com alguém em algum outro local que não fosse a sua casa.
Eu ía-lhe levar regularmente compras. Ela não saía e eu sabía muito bem os gostos dela.
Houve um dia que ela entre as grades da janela da cozinha me disse adeus. Ficou-me para sempre a lembrança desse fim de tarde, da sua mão a acenar, do seu olhar e do seu cabelo.


Três dias depois telefonei-lhe e ela não atendeu.
A minha Mãe faz hoje 82 anos.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

O porquê dos gatos na vida do Papy


Os gatos são aquele ser que resiste sozinho.
Provavelmente os gatos na minha vida foram transmitidos no código genético e da mesma forma que a minha mãe gostava de cães e o meu pai de gatos, eu gosto de gatos e de gatas.
O primeiro gato existencial apareceu na mercearia do meu avô paterno cerca de 1936. Vinha meio cinzento, meio sujo demais, quando entrou pela porta do estabelecimento com umas salsichas nos dentes. O António do talho achava que esse gato tinha entrado na mercearia mas o meu avô afirmou desconhecer tal facto. O António não se conformou totalmente. O meu avô deve ter ficado moído porque não mentia. O gato tinha ganho um lar e uma pançada de salsichas de talho.
Contra a sua vontade, os meus avós e o meu pai deram banho ao gato e foi uma surpresa. O gajo afinal não era cinzento; era preto.
Como era meio furtivo, chamara-no de Morcego e transformou-se o gato terror do Bemformoso.
Este Morcego ainda foi "exportado" para África.
Em Abril de 1940 o meu avô morre e embora o meu pai se esforçasse por manter o negócio, a mercearia que era aquilo que sería chamado hoje de Cash & Carry, tem que ser vendida.
Os efeitos da segunda guerra mundial e a falta de conhecimento do mercado, ganham nesse momento.
Assim, o meu pai e a minha avó vão com o Morcego, no navio Colonial para Lourenço Marques.
Deixam Lisboa em 13 de Novembro de quarenta. A data vai repetir-se duas vezes na família. Vinte anos depois eu nasço e nesse mesmo dia de '93, o meu pai morre.
O Morcego "sobrevive" à viagem e ainda se aguenta ao calor tropical por mais 10 anos.
Mais gatos vão passar pela família mas os únicos que recordo da infância, são o Chapéu, o Gigóz, que segundo os meus pais desapareceu lá de casa fugindo com a minha chucha, e o Morcego II.
Mais tarde, já em Portugal houve um preto e branco com o genial nome Ron Ron. A minha mãe tinha pedido que se chamasse Larbel... não compreendo porque não. Afinal havia tanto gato com nome estranho na família.
O Ron Ron foi o último de todos os gatos a cohabitar com o meu pai. Tinha sido salvo do respiradouro do prédio em pequenito. A gata mãe tinha ficado atropelada na Rua do Moínho Velho.
Não há quase foto onde não haja Ron Ron e meu pai em simultâneo da mesma forma que não há fotos do meu pai sem livros à volta.
Mas isso não tem a ver com a história dos gatos.
Os gatos na minha são uma herança...





domingo, 26 de julho de 2009

As meninas do Papy

Quando o Dico soube que a Mafalda ía fazer 18 anos, embora sem entender esse valor, quis ir à terra onde ela, a irmã Mónica, e a mãe vivem.

Duzentos e cinquenta quilómetros para cada lado é longe para as patinhas de um gato. A viagem, obviamente, foi de carro. Nem uma média de um vómito em cada cem quilómetros lhe demoveu o interesse pela viagem e por descobrir quem eram as raparigas. Para ele nunca foi possível entender porque é que não estamos todos juntos.

A Mafalda hoje também vive mais tempo em outra cidade onde estuda. Estudar é uma expressão muito vasta. Na linguagem do caloiro acabado de chegar a uma grande cidade, cheia de qualidades, tentações, valores e até uma universidade, estudar pode significar, amigos, copos, noites, noites copos, namorado, dormir pouco ou o possível, comer, quase sempre mal, fazer amor com o namorado, comer, copos; estudar por vezes... e correr tudo mal lá na universidade.

A Mok continua a ser o ser só dela. A individualidade secreta, a imagem do pai nas suas piores coisas e até em algumas mais aceitáveis como o gosto pelo Metal e pelo Gótico, especialmente o Sinfónico.

Hoje em dia a Mafalda tem um gato, o Tobias, que tal como o Fred, é um gato cibernauta. Fala várias vezes com ele, embora por vezes seja por telemóvel. Além de se dar bem com gatos que vivem no telhado da casa dele, também fala esporádicamente com o Gatin e Gaton, dois gatos que conheceu em Espanha.

As meninas do Papy estão sempre na lembrança do Fred e quando raramente o papy as vai ver, o Fred tem sempre a esperança que ele o leve, mas quando o papy sai com a malinha e diz xauz, o Fred sabe que uma vez mais não foi e uma vez mais vai ter que ficar com uma lágrima a olhar para uma porta fechada